Os Miseráveis: Primeira Parte, Livro Sexto

Fantine, Javert

Esse livro foi bem curtinho, dois capítulos só, então acho que não vou me alongar muito.

Como disse no final da ~resenha~ anterior, fiquei imaginando se Fantine realmente chegaria a rever Cosette. Acredito não ter comentado sobre isso, mas quando engravidou, Fantine ficou meio doente. Naquela época, as grávidas não tinham acompanhamento médico (pelo menos não as pobres), não tomavam vitaminas etc. Também precisou trabalhar mais, então o esforço a enfraqueceu. A partir disso, adquiriu uma tosse seca que nunca mais a abandonou.

Imaginem como essa doença evoluiu quando começou a viver na miséria absoluta, por causa da perda do emprego. A tosse piorou. E a neve atirada em suas costas por aquele riquinho babaca elevou a enfermidade a um nível desesperador. Depois de desmaiar na "delegacia", Fantine teve uma febre muito alta. Felizmente, agora ela tinha todos os cuidados médicos disponíveis, financiados por Madelaine, mas já era tarde demais. A princípio achei ser efeito da perspectiva de ver sua filha, porém um médico deu o diagnóstico: é bom Cosette voltar logo ou Fantine talvez nunca terá a chance de rever sua filha.


É claro que Madelaine mandou buscar a menina, mas vocês acham que os Thenardier a entregaram? Claro que não! Madelaine se dispôs a pagar todas as dívidas deles e o casal viu ali uma mina de ouro. Como sempre, inventaram as mais diversas desculpas, até a de Cosette estar doente demais para viajar. Finalmente, Madelaine resolve mandar alguém ir lá buscá-la ao invés de apelar para a delicadeza desses dois sanguessugas.

Nesse capítulo, "princípio de repouso", o autor fala de uma coisa ainda recorrente (como em tantas outras questões, esse livro ainda continua atual): a rivalidade entre as mulheres.

Madelaine tem em casa uma espécie de enfermaria particular onde colocou Fantine em repouso. Quem cuida dela são duas irmãs que eu acredito serem voluntárias:

As irmãs de caridade só com repugnância é que a princípio aceitaram e trataram "daquela mulher perdida". Quem tem visto os baixos-relevos do Reims, lembra-se da intumescência do lábio inferior das virgens vastas olhando para as mulheres impudicas. Este antigo desprezo das vestais pelas mulheres da vida fácil é um dos mais profundos instintos da dignidade feminina; sentiram-no as irmãs, com acréscimo de intensidade que lhes dá a religião.


Se esse preconceito imbecil era antigo naquela época, imagina hoje, em 2013. E, no entanto, tanto homens quanto mulheres ainda olham de cima pra mulheres que muitas vezes nem escolheram essa profissão, que foi o caso de Fantine. Diz ela, durante uma de suas febres delirantes:

- Tenho sido pecadora, mas se chegar a ter comigo minha filha, é porque Deus me perdoou. (...) Contudo, foi por ela que eu me fiz má, e talvez por isso Deus me perdoou.


E nem vou entrar no mérito de "quem quer, corre atrás, não precisa se entregar a isso", porque aqui não é o lugar.

Enfim, esse livro termina sem termos mais notícias de Cosette ou de Fantine, além da que Madelaine mandou um mensageiro ir buscar a menina, com uma carta assinada por Fantine e que esta encontra-se ainda acamada, em terrível estado de saúde.

O próximo capítulo é um tanto quando inesperado. Javert vai procurar Madelaine querendo ser demitido. WHAT THE FUCK?

O narrador não revela o objetivo do inspetor ao procurar o maire logo de cara. De início, achei que ele tinha dado um jeito de incriminar Fantine. Juro que fiquei com o coração apertado enquanto era feita uma descrição minuciosa da aparência de Javert e da reação de Madelaine ao ser procurado. E quando finalmente foi dito pra quê ele estava ali, meu queixo quase caiu. Aconteceu o seguinte: há algum tempo atrás, Javert denunciou Madelaine a prefeitura como sendo um ex-forçado das galés. E que forçado era esse? JEAN VALJEAN!!!!!! Isso mesmo, Javert denunciou Madelaine como sendo Jean Valjean. Só aí percebi que até agora não sabemos o que aconteceu ao injustiçado após ter se arrependido e voltado pra casa do bispo. Sabemos, porém, que Myriel morreu de velhice após uma longa vida, sendo que a parte religiosa dela transcorreu da forma mais honrada possível (até onde sabemos).

Entretanto, a prefeitura respondeu que isso era impossível, visto que Jean Valjean tinha sido recapturado e seria julgado novamente. A justiça sabia do roubo da prata na casa do bispo e também do roubo da moeda da criancinha e o pegou sob o nome de Champmathieu roubando uma maçã (quantos anos ele pegará por esse crime? 1500?). Então Javert foi lá pedir desculpas a Madelaine e exigir sua expulsão da polícia.

Não me admira essa atitude. Como já foi explicado, ele valorizava a lei mais que tudo e reconheceu que sua atitude foi praticamente um crime. Denunciar um superior pelas costas sem prova nenhuma e por pura raiva foi errado e seria hipócrita de sua parte não sofrer as consequências, já que ele sempre foi rígido quando julgava ver um crime. No entanto, Madelaine acha que é um exagero expulsá-lo da corporação (e Javert quer ser EXPULSO e não pedir demissão) e diante da insistência do inspetor, diz algo como "vou pensar sobre o assunto".

Vocês acham que seria justo ele ser mandado embora? Estou dividida. Javert não é um bom agente da justiça, dá pra ver que ele zela pelos ricos e desdenha dos pobres. Mas ele faz isso porque acredita ser o certo, ele realmente acredita que está fazendo o seu melhor. Como já vimos, Javert respira a polícia e a lei. Entretanto, Hitler também acreditava estar fazendo o certo quando quis "purificar" a Alemanha.

Pensando bem, perder o emprego não seria um castigo tão mau pra quem despreza o pobre e incrimina o inocente.

Enquanto isso, a história de Champmathieu se desenrola. Duvido que ele seja de fato Jean Valjean e, nesse caso, onde está o verdadeiro Jean e quem é esse tal Champmathieu? Juro que, por um momento, achei que Madelaine pudesse realmente ser o nosso ex-forçado preferido, porque quando Javert afirma que seria impossível o maire ser o tal Jean, Madelaine pergunta num tom meio estranho "está bem certo de não se ter enganado?". Obviamente, ele estava sendo irônico, como se dissesse "tem certeza das suas afirmações agora, sr. Javert?", mas também pareceu que ele estava sugerindo alguma coisa.

Bom, essas são cenas dos próximos capítulos! :)

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