Os Miseráveis: Primeira Parte, Livro Quinto

Fantine, A Descida


Até agora, esse foi o livro mais intenso e devastador pra mim. Lembram da minha indagação sobre os motivos para Fantine não ter ido buscar Cosette no final do livro quarto? Agora, no livro quinto, vamos saber as respostas. Não posso afirmar, mas talvez essa seja a parte mais famosa de Os Miseráveis. Aqui são narradas as desgraças pelas quais Fantine passa.

Antes de mais nada, o autor narra a história da cidade natal de Fantine, Montreuil-sur-mer, para onde ela está indo quando deixa Cosette com os Thernardier. A cidade é bem pobre e simples até um tal de Madelaine chegar e revolucionar um certo processo industrial. Ele montou duas fábricas na cidade: uma para homens e outra para mulheres. Isso mostra um pouco do seu conservadorismo, pois além disso, ele é um cara muito religioso.

Quando Madelaine chegou a cidade, houve um incêndio na casa do prefeito. Ele tirou de lá a família viva e, por isso, ficou conhecido. Posteriormente, veio a história das fábricas e logo o cara tinha um lucro exorbitante e chegava a exportar para grandes países como a Espanha. É claro que isso causou inveja na sociedade, apesar de ele ter um coração muito bom.

Pra dizer a verdade, o tom da narração me fez acreditar que quem tinha causado aquele incêndio foi, na verdade, o próprio Madelaine. Pelo visto foi uma interpretação equivocada, porque ele praticamente construiu uma cidade nova após enriquecer. Adicionou leitos aos hospitais, construiu escolas, deu assistência médica aos seus operários e distribuiu dinheiro aos pobres. Além disso, recusava todos as regalias oferecidas pelo governo e assim não dava muita margem para a alta sociedade falar mal dele. Obviamente, essas pessoas, a quem o autor chama de "as boas almas" (no tom mais irônico da coisa, é claro) sempre davam um jeito de achar um defeito. Olhem:

Quando o viram ganhar dinheiro, disseram: "É um comerciante". Ao vê-lo distribuir o dinheiro que ganhara, bradaram: "É um ambicioso". Quando viram que repelia todas as honras, exclamaram: "É um aventureiro!". E, finalmente, disseram ao vê-lo fugir esquivo à convivência da sociedade: "É um homem grosseiro".


Fica visível a crítica do autor à mesquinhez das pessoas de maior poder aquisitivo. Elas desdenharam de Madelaine até ele ter dinheiro e se sentiram ofendidas quando rejeitou sua companhia. Pra vocês terem uma ideia, um deputado até adicionou dois leitos ao hospital e começou a frequentar a missa pra, vocês sabem, não ficar pra trás, né.

Com a adição desse personagem, fico imaginando se o autor considerava de boa índole os conservadores e castos. São três exemplos de personagens claramente glorificados: Fantine, Madelaine e Myriel. Todos os três ou são religiosos (não lembro de isso ter sido dito sobre Fantine) ou são recatados etc. Ele realmente pensava assim ou é só a cultura da época? Porque esse conservadorismo do Madelaine me irrita. Ele fez duas fábricas separadas para evitar que os homens se corrompessem e as mulheres fossem seduzidas, mas assim, tudo bem, porque esse é um pensamento típico da época e ele frequenta a igreja. Talvez Madelaine não empregaria Fantine se soubesse da sua filha bastarda.

Falando só mais uma coisa sobre Madelaine: por que as pessoas duvidam tanto dele e não o amam como o povo fazia com Myriel em Digne? Mesmo os mais pobres gostavam de inventar histórias sobre Madelaine. Umas moças até pediram para ver seu quarto, pois circulava o boato de que ele colecionava objetos mórbidos. O povo não duvidava de Myriel só por ele ser da Igreja?

Em certo momento, quase ninguém ousava suspeitar de Madelaine. Uma das exceções era Javert, um inspetor da polícia muito orgulhoso do próprio zelo pela lei.

Javert era completamente obcecado pelo trabalho. Não tinha vícios nem lazer, só se concentrava no ofício. Metia medo nas pessoas, principalmente nos "vândalos" e "vagabundos". Agora vejam, estamos numa ótima época para conhecer um personagem como esse inspetor. Nesse cenário brasileiro de manifestações e insatisfação popular, quem as "boas almas" entendem por "vândalos" e "vagabundos"? Pois é.

E por que Javert é desse jeito? Acredito ser sua descendência. Ele é filho de um forçado. Assim como Jean Valjean, seu pai foi condenado a trabalhar nas galés e, pelo o que entendi, sua mãe foi exilada (não sei se do país ou da cidade onde morava). Obviamente, a sociedade marginalizou Javert apenas por ser filho de um criminoso (e nem sabemos que crime é esse e se realmente aconteceu). Logo, ao defender com unhas e dentes a lei, talvez ele pense que ninguém possa dizer um "ai" contra seu caráter. Como se, sendo um bom inspetor de polícia, a expressão "filho de peixe, peixinho é" não fosse válida.

Confesso não ter compreendido a suspeita de Javert sob Madelaine. Javert só passou a respeitá-lo quando o empresário foi promovido a maire da cidade. Não sei o significado exato disso, acredito ser uma espécie de prefeito. Ninguém poderia passar por cima do maire nas questões municipais. Tem uma página no wikipédia que explica, mas é em francês. Pelo visto, o cargo existe até hoje.

Tá, mas e Fantine? Esses personagens são bem explicados porque são importantes na história dela. Vamos lá!

Como vocês esperavam (acho), Fantine trabalhava na fábrica de mulheres e estava se dando bem. Mandava o dinheiro para os Thenardier, tinha uma casa e escrevia cartas todo o mês para a filha. Infelizmente, Fantine não sabia escrever, então precisava pagar alguém para fazê-lo. E aí começa a merda.

Como já foi dito no outro post, Fantine era uma moça muito bonita e honesta. Tinha cabelos loiros muito bonitos, um sorriso saudável, com todos os dentes brancos e lindos. É claro que isso geraria inveja nas outras mulheres. Elas começaram a se perguntar pra quem Fantine escrevia tantas cartas...

Não há, para se intrometer na vida das pessoas, como aqueles a quem ela não diz respeito.


O bom e velho "TRABALHAR QUE É BOM NINGUÉM QUER".

Então as fofoqueiras foram atrás do escrivão e descobriram Cosette. Descobriram até que a menina estava com os Thenardier e onde era a estalagem. Aí já viu... Para ir lá e confirmar a história, só era necessário alguém com muito tempo livre. E essa pessoa foi a velha Victurnien.

Odeio velhas. São poucas as senhoras com quem tenho vontade de conversar. E digo isso porque convivi com muitas velhas, principalmente dos 10 aos 16 anos. Essas velhas com as quais convivi eram da igreja. Forçadamente, fiz catequese e primeira comunhão porque minha mãe era muito ligada nessas coisas e às vezes essas velhas vinham aqui pra casa rezar o terço. A cada quinzena ou a cada mês, não tenho certeza, elas se reuniam na casa de alguém, rezavam o terço e depois tinha um lanchinho. O que elas faziam enquanto saboreavam um bolo com café oferecido pela dona da casa? FALAVAM MAL DOS OUTROS. E isso pra mim era um absurdo, porque há meia hora atrás estavam todas rezando a Jesus, falando sobre como Ele se sacrificou por nós e disse AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI e assim que o terço era deixado de lado, elas falavam mal das pessoas, fazendo fofoca, julgando as ações dos outros.

Odeio velhas.

Então, essa Victurnien era assim: defensora da moral e dos bons costumes. Ia a igreja e zelava pela honestidade, sabe? Mas no passado tinha fugido de casa com um cara qualquer e fez negócios com o pessoal da igreja ou seja, de santa essa velha não tinha nada. Só era respeitada porque as pessoas não sabiam nada do seu passado. Essa personagem não lembra aquela velha (!!!!!!!!!!) de Gabriela, super conservadora, que condenava todo mundo, mas no final descobriram que ela tinha sido QUEEENGA? Victurnien é exatamente assim. E foi ela quem foi lá ver Cosette e espalhou a notícia pra todo mundo.

Com isso, a supervisora da fábrica despediu Fantine em nome de Madelaine, sendo que ele nem sabia dessa história. Ele entregou a direção da fábrica a essa mulher e confiava 100% nela. Assim, Fantine não tinha mais emprego e não conseguia arranjar nenhum outro, pois sua má fama estava feita.

Enquanto isso, os Thenardier continuavam enviando cartas pedindo dinheiro, inventando que Cosette precisava disso ou daquilo, quando na verdade não precisava nada. Ou se precisava, claro que eles negligenciavam. Primeiro, disseram que ela precisava de uma saia de lã. Fantine vendeu os belos cabelos, comprou a saia e mandou a eles. O casal, é claro, ficou revoltado! Eles não queriam uma saia, queriam dinheiro, que audácia de Fantine! Deram a saia a uma de suas filhas e a pequena Cotovia continuou com frio. Depois, disseram que a pequena tinha pegado uma doença fatal e precisavam de uma quantidade exorbitante de dinheiro para os remédios. Fantine vendeu os dois dentes da frente. É claro que Cosette não estava doente coisíssima nenhuma.

Pra completar, Fantine estava cheia de dívidas na cidade. Só sobrou uma solução: se prostituir.

Agora vejam vocês. Esse livro foi horrível. A Fantine sofre demais, ela fica até meio louca. Ela meio que taca o "foda-se" e para de se arrumar e de andar toda limpinha. É uma sombra de quem foi um dia. E daí que vem o título do livro. Fantine desceu até o fundo do poço, abandonou a mulher que tinha sido um dia, já não se importava mais consigo mesma. E, assim como Jean Valjean, Fantine começa a pegar raiva do mundo, principalmente de Madelaine. Ela acredita que ele foi o responsável por toda a sua desgraça, por tê-la despedido, quando o coitado nem sabia da sua existência. Até uma fatídica noite que pode dar uma virada na vida de Fantine.

Num dia de neve, Fantine está vagando no meio da rua. Como eu disse, ela meio que enloqueceu. Um homem de classe média/classe média alta põe-se a implicar com ela, chamando-a de feia e coisas do tipo. Ela mantém-se calada. Até que, não satisfeito, o homem se dá ao trabalho de levantar, ir até Fantine e jogar uma bola de leve dentro de seu vestido, pelas costas.

Acho que ele seria o equivalente aos filhinhos de papai que queimam índios e espancam empregadas domésticas.

Nesse momento, e só nesse momento, depois de aguentar calada as provocações, Fantine parte pra cima do cara. Derruba-o no chão e põe-se a arranhar o rosto do sujeito. Cara, se fosse eu, acho que tinha castrado esse fdp. Só que Javert chega e como já disse, ele odeia "vândalos" e "vagabundos". Apesar de o cara ter provocado Fantine, uma pessoa humilde, que estava a caminhar sem fazer nada, adivinha quem é levada para a delegacia? A prostituta vagabunda, é claro. E ainda é condenada a seis meses de prisão por "insultar um burguês".

Quando viu Javert, ainda na rua, Fantine paralisou. Passou o trajeto todo até a delegacia em silêncio, porque os pobres tinham medo dele, porque ele defendia a lei das "boas almas" e não a lei de todos. Mas quando ouviu a sentença, Fantine entrou em pânico. Quem ia mandar dinheiro para Cosette?! Então ela se põe de joelhos e, entre soluços, tenta explicar sua situação e de sua filhinha ao inspetor, que permanece impassível. Até Madelaine, o maire, chegar.

Os dois têm uma discussão. O maire tem autoridade judicial sob o inspetor e exige a liberdade de Fantine. Javert é um defensor da lei e não se atreveria a questionar o maire, mas tenta convencê-lo de que ela é uma criminosa. Enquanto isso, Fantine fica confusa, pois o homem que ela odeia há tanto tempo quer salvá-la desse destino cruel. E, como ela está meio doida, fica falando sozinha, murmurando pra si, tentando entender a confusão. É aí que Madelaine descobre porque a mulher é tão desgraçada, descobre que ela o culpa e toma para a si a responsabilidade de cuidar de Fantine e Cosette.

É claro que, nessa parte, meu coração já estava apertado e algumas lágrimas queriam cair. Fantine sofreu demais, deixando um rastro de pessoas de má-índole em boas condições devido ao seu sofrimento. Parece que, finalmente, toda essa tristeza vai acabar e vai ser paga. Finalmente ela poderá viver com sua filha e em boas condições de vida! Fantine desmaia diante dessa perspectiva.

Mas alguma coisa me diz que não vai ser tão fácil para as duas finalmente serem felizes.

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