Os Miseráveis: Primeira Parte, Livro Segundo

Fantine, A Queda

Continuando a leitura de Os Miseráveis... Cheguei a parte na qual nos é apresentado um dos protagonistas: Jean Valjean. No filme, ele é interpretado pelo Wolverine. Digo, Hugh Jackman.



O livro começa com Jean finalmente saindo da prisão, depois de dezenove anos. Lá pra frente descobrimos que ele não foi condenado a prisão somente, mas sim a trabalho forçado nas galés (imagino se tem alguma coisa a ver com a Napoleão brincando de WAR, se ele precisava de muitos navios e como a mão-de-obra era pouca, colocou os presos pra trabalhar. Aliás, galés são embarcações de guerra?). Descobrimos também que sua sentença inicial era de cinco anos, mas foi aumentando a medida que tentava fugir.

Agora gente, vocês acham que essa pena foi justa, mesmo com tantas tentativas de fuga? Jean foi julgado por furto de um pão e uma vidraça quebrada. Ele morava com a irmã e seus sete sobrinhos e sustentava essa família como podador e mais alguns bicos. Só que chegou um inverno rigoroso, faltou trabalho e ele se viu sem opção. Quebrou a vitrine de uma padaria, roubou um pão. Foi pego e condenado.

É por isso que esse livro é um clássico. Essa situação se repete até hoje. Quantas pessoas você conhece que são presas por roubar comida enquanto alguns outros criminosos muito mais perigosos estão soltos por aí? Que eu saiba, roubar/furtar por fome nem é crime no Brasil (procure por furto famélico). Enfim, com certeza o que Jean Valjean sofreu foi injusto e ele mesmo, durante todos esses anos de condenação, percebeu isso. Jean concluiu que a sociedade o castigou em excesso e tornou-se um homem fechado, que quase nunca ria, cheio de ódio pelo homem e até mesmo por Deus. Bom, eu no lugar dele também ficaria revoltada.

As cidades produzem homens ferozes porque produzem homens corruptos.

Acontece que esse homem descrito lá pelo meio desse livro não combina com a figura que conhecemos logo no começo, quando Jean chega a Digne e está procurando por abrigo. Mesmo preso, ele recebeu uma quantia de dinheiro por seus serviços e está procurando uma pousada para passar a noite. Acontece que os documentos dos ex-presos são marcados de amarelo, logo qualquer um sabe que o cara foi forçado nas galés e, dessa forma, ninguém quer abrigá-lo. Só que ele se apresenta de forma humilde a quem pede abrigo, como uma vítima (não que ele não seja, só estou dizendo que ele mesmo se apresenta assim), e pra mim essa atitude não combina com o que o autor quis fazer de Jean: o injustamente condenado revoltado com a sociedade.

O negócio é que uma senhora aconselha a Jean que vá pedir socorro na porta de quem? Do bispo Myriel, é claro! Lógico que o homem acolhe Jean, sem nem mesmo querer saber quem ele é, embora as duas mulheres da casa (irmã de Myriel e a criada) estejam sabendo que anda por Digne um ex-forçado e tenham medo.

O bispo dá de comer a Jean, arruma uma cama a ele, até dá conselhos sobre o que deve fazer a seguir. E, durante a noite, Jean cede a uma tentação: resolve roubar os talheres de prata da casa que ficam guardados no quarto do bispo, único luxo do qual o clérigo dispõe (e nem faz muita questão, diga-se de passagem). A cena do roubo é muito bonita e significativa. Em certo momento, parece que vai virar um clichê, mas no fim Jean acaba roubando os talheres mesmo e foge. Essa cena em especial ficou muito clara na minha cabeça e espero que seja assim no filme também.

A natureza, às vezes, nos seus efeitos e espetáculos, estabelece com as nossas ações uma espécie de correlação tão sombria e inteligente, que parece querer, por meio dela, fazer-nos refletir e sondar-nos a nós próprios. Havia perto de meia hora que uma espessa nuvem cobria o céu. No momento em que Jean Valjean parou, em frente ao leito, a nuvem rasgou-se, como se o fizesse de propósito, e um raio de luar, coando-se por entre a janela rasgada do quarto do bispo, veio subitamente iluminar o pálido rosto do prelado, que dormia serenamente. (...) O mundo moral não possui mais grandioso espetáculo do que o de uma consciência perturbada e inquieta chegada à beira de uma má ação e contemplando o sono de um justo.

Jean Valjean segue seu caminho, ou seja, foge com a prata, e tudo muda quando a moeda de uma criança rola para baixo de seu pé e ele se recusa a entregá-la de volta. É aí que entra em cena uma coisa já mencionada pelo narrador antes: vive dentro de Jean duas personalidades. A primeira, do homem honesto, o homem que ele era antes de sofrer tantas injustiças. E a segunda, da "besta" que cresceu alimentada pelo ódio já mencionado pela sociedade. Quando Jean "rouba" a moeda da criança, o narrador explica que foi um ato inconsciente, instinto da besta. Quando o Jean Valjean de fato percebe o que fez, sai desesperado atrás da criança e, não conseguindo encontrá-la, sente a necessidade de redenção (pelo menos é isso que eu acho que é) e volta pra casa do bispo. E agora? Será que o bispo punirá Jean de alguma forma? O que Jean fará na casa do bispo? Porque com certeza ele vai ficar lá, sei que o bispo vai acolher ele.

Bom, de uma forma geral, esse livro foi bem triste. O narrador chega a explicar o que aconteceu com os sobrinhos de Jean e sua irmã. Alguns morreram, outros não se sabe para onde foram e o mais novo ficou com a mãe. Os dois foram parar numa área pobre de Paris. E, no fim da narração sobre os destinos da família de Jean, o narrador diz alguma coisa como "e não se sabe o que aconteceu com eles e não serão mais mencionados neste livro". Não é triste? Jean passou dezenove anos preso porque tentou alimentar sua família e agora nunca mais vai vê-la, não vai ter o apoio dela pra recomeçar a vida. É horrível, cara.

P.S.: Não entendi porque o título do livro é "A Queda". Quem caiu? A besta que vive em Jean, que se rendeu e voltou em busca de perdão?

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