Sobre livros estáticos na estante


Sendo este um blog predominantemente literário, suponho que os meus leitores sejam amantes fervorosos dos livros impressos. Daqueles que se sentem ameaçados com a futura, porém inevitável, dominação dos e-books e quase morrem do coração se um amigo pede um exemplar emprestado. Infelizmente, me encaixo nessa categoria. Não há nada de errado em amar livros, pelo contrário. O problema é quando esse amor é exagerado. Aliás, qualquer coisa em exagero é ruim.

Devo confessar: antes de ter o blog, a minha estante não era tão recheada. Sempre foi muito maior se comparada às estantes das minhas amigas e amigos, mas era uma formiguinha perto das dos blogueiros e outros leitores. Então, se quisesse ler alguma coisa diferente, eu precisava pedir emprestado a alguém, pedir pro meu pai ou ficar na vontade. Mesmo com essa escassez de leitura, trocar livros nunca passou pela minha cabeça. Eu tinha orgulho de ser uma leitora voraz jovem, coisa tão incomum no lugar onde morava, estudava, enfim, na minha vida social em geral.

O grande susto veio quando, assistindo um vídeo tipo na minha caixinha do correio, a blogueira disse que tinha pedido pra editora enviar um livro x a fim de completar a sua "coleção". Coleção. Lembro como se fosse ontem o susto que levei. Esse termo fez toda a diferença pra mudar a minha concepção de leitora. "Coleção" lembra um monte de coisas paradas na sala de estar, poeirentas, pras visitas olharem e admirarem. Conheço um cara dono de coleção de carros em miniatura. As pessoas olham para aqueles carrinhos, acham bonitinhos, quem sabe até engraçadinhos. Pegam um na mão, fazem algumas perguntas vagas e colocam de volta no lugar. O cara deve ficar orgulhoso daquela coleção, mas qual diferença palpável aquilo faz na vida dele ou das pessoas que passaram naquela sala de estar? Nenhuma.

Percebi, então, que eu fazia a mesma coisa com meus livros. Deixava-os categoricamente arrumados na estante do meu quarto. Minha amigas vinham, ficavam admiradas por eu ser uma pessoa diferente e isso inflava meu ego. Eu ostentava meus livros.

A segunda percepção daquele dia veio logo em seguida: não quero ser esse tipo de pessoa. Não quero ser alguém que aprisiona livros só para exibi-los. Eles não foram feitos pra isso. Foram feitos para serem lidos, admirados. Uma história foi feita para ser contada. Já imaginou se as lendas e mitos do passado não fossem contados? Se as senhoras, aquelas velhas já fisicamente indispostas não se dessem ao trabalho de passar essas maravilhas para frente, se elas fossem egoístas o bastante para manter a boca fechada?

Pois é isso que nós, que gostamos de nos entitular "leitores", somos. Egoístas. Quem mantém um livro preso na estante só por ficar bonito, porque tem orgulho de ter uma coleção grande, é egoísta. Você tem certeza que ama mesmo seus livros, deixando-os parados por anos numa prateleira, lidos só uma vez, quem sabe duas ou três? Você realmente acha que ler um livro umas cinco vezes é suficiente quando dez, vinte pessoas poderiam fazê-lo? Você realmente acha isso?

Eu tenho pena de você.

É difícil passar obras amadas pra frente, EU SEI. Ainda estou em processo. Reluto em emprestar certos livros, quiçá trocá-los. Porém sei que, com o tempo, isso vai mudar. Bom, pelo menos estou tentando.

E você, vai ser egoísta até quando?

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