Caminhos de Sangue, Moira Young

Caminhos de Sangue - Dustlands, livro 1
Moira Young | Intrínseca | 349 págs. | Skoob

O Lugh nasceu primeiro. No solstício de inverno, quando o sol fica bem baixinho no céu. Depois fui eu. Duas horas depois. Isso já diz tudo.
O Lugh vai primeiro, sempre primeiro, e eu venho atrás.
E assim tá bem.
Assim tá certo.
É assim que tem que ser.

Saba foi criada na Lagoa de Prata, uma imensidão de terra desértica assolada por constantes tempestades de areia. A miséria e a aridez do lugar não a incomodam, contando que seu irmão gêmeo, Lugh, esteja por perto. Um dia, porém, pouco depois de seu aniversário de dezoito anos, uma enorme tempestade traz em seu rastro quatro cavaleiros de manto negro, e a vida de Saba desmorona como a areia que rasgava o céu: seu pai é morto e Lugh, seu sol, é raptado. Saba não tem escolha a não ser ir atrás dele.

Atirada na realidade selvagem e sem lei do mundo fora da Lagoa de Prata, Saba não sabe o que fazer sem Lugh para guiá-la. Por isso, talvez, sua maior surpresa seja o que descobre sobre si mesma: é uma lutadora incansável, uma sobrevivente voraz, a mais astuta das oponentes. Com a ajuda de um audacioso e atraente fugitivo e de uma gangue de garotas revolucionárias, a busca pelo seu irmão fará dela a protagonista de um confronto que vai mudar o destino de uma civilização.

Com ritmo ininterrupto, muita ação e uma épica história de amor, Caminhos de Sangue é uma aventura violenta e grandiosa.

Saba é uma cabeça dura. É um esteriótipo de personagem bem definido e conhecido: não confia nem ama ninguém. Na verdade, ela escolheu seu irmão gêmeo Lugh para concentrar sua devoção. É teimosa como uma mula e acha que sabe se virar sozinha, não precisa de ajuda nenhuma. Também não considera o tipo de amor romântico uma necessidade e recusa a se envolver com alguém do sexo oposto. Essa é Saba.

A relação dela com o irmão me pareceu um pouco estranha de início. Tenho um irmão mais velho e o amo DEMAIS e também faria tudo por ele, mas Saba idolatra Lugh. Acho que todo mundo vai sentir o mesmo no começo da leitura, achar essa relação fantasiosa, exagerada e até forçada, mas deve-se levar em consideração a personalidade descrita mais acima e o pouco contato feito com terceiros. Aliás, Saba não viu ninguém além da família e um vizinho que aparecia pela Lagoa da Prata esporadicamente. Com o passar da leitura, ela vai criando laços afetivos com outros personagens e, inacreditavelmente, até com sua irmã mais nova, Emmi.

Essa pequena merece um destaque. Ela e Saba se odeiam. Não é um ódio fraternal comum, coisa implicante e tal, é ódio genuíno, pelo menos da parte de Saba. Tão teimosa quanto a irmã, Emmi demonstra ser uma menina muito forte psicologicamente, considerando seus apenas nove anos. Também tenta socar e chutar, mas seu corpo esmirrado não colabora muito. Uma das partes mais legais da história é acompanhar a evolução do relacionamento das duas e reparar, conforme a leitura avança, na semelhança entre elas. Apesar disso, concordo com a Saba em muitos pontos: Emmi não passa de uma criança e deveria ter ficado fora de muitas situações, não sei porquê os outros personagens não enxergam isso. Cheguei a ficar com ódio da Emmi algumas vezes, mas não posso negar que sua presença foi essencial para a qualidade da trama.

Esta, por sua vez, pareceu ser feita pra um livro único. O final foi bem sólido, então não consigo imaginar qual será o enredo do próximo mesmo depois de ter lido a sinopse de Rebel Heart. O segundo livro de Dustlands será lançado esse mês nos EUA e, como sempre, nem sinal por aqui.

Bom, na verdade, a única ponta solta para o próximo volume foi o par romântico da nossa heroína, o Jack.

Ah, Jack.

Jack é, de longe, meu personagem preferido de Dustlands. Se vocês, jovens mansebas, acharam Patch (Sussurro, Becca Fitzpatrick) charmoso, PRECISAM conhecer o Jack. Ele é aquele tipo de cara convencido de um jeito irritante que encanta com um olhar, aquele olhar, e um sorrisinho torto. Outro fator bastante atraente nele é a sua inteligência. Ele é mais vivido que a Saba, já passou por mais lugares e precisou se virar a vida toda. Pra um pessoa de gênio forte como ela, ter uma pessoa mais inteligente ao seu lado é muito irritante. A nuance de comédia do livro vem, em sua maioria, de diálogos com o Jack. O cara me rendeu não só boas gargalhadas como muitos suspiros também. Ele tem o coração mole rs

Bom, como vocês puderam perceber, o grande diferencial de Dustlands, pra mim, foi os personagens. Até os coadjuvantes fizeram sua parte e as Gaviãs Livres, um grupo de meninas duronas, merece um aplauso. Já a trama em si me pareceu bem simples. O que chama mais atenção é a qualidade de vida das pessoas e a forma como sobrevivem. Moira criou uma sociedade bem simples, toda controlada a base de uma droga, o chaal. É bem interessante observar como a autora trabalhou esse cenário.

Por último, quero falar sobre um aspecto muito comentado de Dustlands: a linguagem. A autora expressou o isolamento dos personagens da educação escrevendo como se fala. O uso de "falano", "escreveno", "tá", do verbo estar, e coisas assim pode parecer estranho no começo, mas você acaba se acostumando. Achei essa parte meio forçada porque só algumas palavras, em suas maioria verbos, são escritas fora da norma culta padrão. Essas palavras "jogadas" em um canto aqui e outro ali deixaram a construção forçada e, principalmente, sem propósito. Se é pra escrever "errado", escreva TUDO errado e não só algumas coisinhas.

Além disso, ela simplesmente NÃO usa travessões! O mais estranho é que isso não foi um problema. É fácil pegar e absorver o estilo dela, só muito raramente a leitura ficou confusa e precisei reler a frase pra diferenciar fala de ação. Vi muita gente desistindo da leitura por causa desse estilo diferente. Não façam isso! Com o tempo, vocês vão pegar o jeito e vai ser até esquisito voltar a ler com travessões de novo.

É isso, galera. Gostei mais dos personagens e das relações entre eles do que da história em si. Não foi ruim, só não foi extremamente marcante. Esperava um pouco mais de sangue :P

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