Feios, Scott Westerfeld

Feios - Feios, livro 1
Scott Westerfeld | Galera Record | 415 págs. | 2010


Tally Youngblood é feia. Não, isso não significa que ela seja alguma aberração da natureza. Não. Ela simplesmente ainda não completou 16 anos. Em Vila Feia, os adolescentes ficam presos em alojamentos até o aniversário de 16 anos, quando recebem um grande presente do governo: uma operação plástica como nunca vista antes na história da humanidade. Suas feições são corrigidas à perfeição; a pele é trocada por outra, sem imperfeições ou - nem pense nisso - espinhas; seus ossos são substituídos por uma liga artificial, mais leve e resistente; os olhos se tornam grandes; e os lábios, cheios e volumosos. Em suma, aos 16 anos todos ficam perfeitos.

Tally mal pode esperar pelo seu aniversário. Depois da operação, vai finalmente deixar Vila Feia e se mudar para Nova Perfeição, onde os perfeitos vivem, bebem, pulam de paraquedas, voam a bordo de suas pranchas magnéticas e se divertem (o tempo todo). Mas, enquanto espera que as poucas semanas até completar 16 anos passem, Tally precisa se distrair.

Uma noite, ela conhece Shay, uma feia que não está nem um pouco ansiosa para completar 16 anos. Pelo contrário: Shay pretende fugir dos limites da cidade e se juntar à Fumaça, um grupo de fora da lei que sobrevive retirando seu sustento da natureza.

Para Tally, isso é uma maluquice. Quem iria querer arriscar ficar feio para sempre ou se arriscaria a voltar para a natureza e queimar árvores para se aquecer, em vez de viver com conforto em Nova Perfeição e se divertir à beça? Mas quando sua amiga desaparece, os Especiais, autoridade máxima desse novo mundo, propõem um acordo a Tally: se unir a eles contra os Enfumaçados ou ficar feia para sempre. A escolha de Tally irá mudar o mundo ao seu redor, mas, principalmente, ela mesma.

A onda de distópicos vai atacar aqui no blog, fiquem ligados.

Bom, já quero começar dizendo que gostei bastante de Feios. A primeira parte (não estou me referindo a divisão do livro - três partes - mas sim o começo da história etc) é bem introdutório, obviamente. Primeiro, conhecemos um pouco do mundo pós-apocalíptico. Mas Scott não vai nos situando detalhadamente como fez Suzanne em Jogos Vorazes. Nós vemos tudo pela visão de Tally, a personagem principal. Ela não está preocupada em situar o leitor, a acostumá-lo com o novo modo de viver da humanidade. Os detalhes nós vamos descobrindo aos poucos.

Depois conhecemos mais da própria Tally, a nossa heroína que no começo nem é heroína mesmo. Tally é uma menina completamente manipulada, dá pra perceber. Ela engole toda a história contada pelo governo e está ansiosa pra se tornar uma perfeita. Não me venha dizer "ah, isso é spoiler". Não é preciso ser um leitor muito experiente para ir além da versão oficial sobre a operação para se tornar um perfeito. Basta olhar o modo como os operados agem. Se tornam outras pessoas, esquecem suas antigas convicções. Peris, o melhor amigo de Tally, está aí de prova.

Uma parte ruim da história foi esse "quê" a mais do governo. Desde o começo do livro eu já tinha sacado o que era, portanto a surpresa não foi total. Apesar disso, muitos outros fatores aparecem para contrabalancear essa previsibilidade.

A narrativa de Scott é fluida, fácil de entender. Gostei do modo como construiu esse novo mundo e principalmente como construiu Tally. Ela é bem sem graça. Um pouco teimosa, rebelde como qualquer adolescente, mas não tem nenhuma característica especial. Pra mim, isso foi proposital.

Vejam bem, Feios fala sobre uma situação recorrente na realidade. Como as pessoas são criadas para se sentirem feias, como são manipuladas pelos seus governantes e nem percebem. Scott escolheu uma personagem simples, sem nenhum atrativo, para demonstrar que qualquer um pode reverter essa situação. Não sei se estou viajando demais, criando teorias loucas demais, mas tive essa sensação o tempo todo. No caso de Jogos Vorazes, fica mais difícil se identificar com a Katniss porque ela é uma caçadora, uma sobrevivente. Mas Tally é uma garota comum. Só conheceu a pessoa "errada" e tomou a escolha "errada".

Desculpem ter comparado Feios e Jogos Vorazes diversas vezes, mas foi só pra ilustrar meu ponto de vista. Não estou querendo dizer superiorizar nem um, nem outro. Ambos os livros são ótimos, com enredos ótimos e ideias espetaculares. Scott é tão gênio quanto Suzanne (apesar de toda essa história do Battle Royale) e trouxe ao mundo mais um livro pra nos fazer parar e pensar um pouco.

Aliás, durante a leitura, pensei em várias coisas. Vários teorias, mensagens subliminares. Gente, não posso com esses distópicos! Mas esse é um assunto pra outro post =)

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