Belle, Lesley Pearse

Belle
Lesley Pearse | Novo Conceito | 559 págs. | 2012


Belle, uma jovem de 15 anos, viveu toda a sua vida em um bordel, sem saber o que realmente acontecia nos quartos no andar de cima. Porém, em uma noite que poderia ter sido como qualquer outra, ela testemunhou o assassinato de Millie, uma das garotas que ganha a vida na Casa de Annie, e em seguida foi raptada pelo assassino e enviada a Paris.

Incapaz de escolher seu destino, ela acaba aceitando as circunstâncias e, ao chegar em New Orleans, Belle decide aproveitar a vida como cortesã, mesmo que as lembranças de sua casa e as ameaças que a espreitam exijam mais coragem do que ela jamais imaginou ter.

Neste romance intenso, Lesley Pearse nos presenteia com a jornada de Belle por um mundo em que é necessário mais que esperança para se acreditar que é possível encontrar a felicidade.

Belle é inocente. Sua mãe, Annie, gerencia um bordel, mas toma precauções para sua filha não seguir pelo caminho dela e nem pelo das suas meninas. À noite, Belle é obrigada a ficar quarto, uma espécie de porão, e sob hipótese nenhuma pode ir ao andar de cima. As contratadas da Casa de Annie não podem construir relações de amizade com Belle e nem revelar o que fazem pra sobreviver. Ela só está acostumada a escutar os risos, os passos e a música vindos lá de cima.

Bom, começamos por aí: na sua idade, Belle já não frequenta a escola, mas frequentou um dia. O assunto "prostituição" era um tabu muito grande naquela época (se ainda hoje é, imagina lá), mas mesmo assim as pessoas conversavam sobre isso, aos sussurros. Acho meio difícil uma estudante não ter a mais remota ideia do objetivo de um bordel. Relevemos.

As primeiras 50 páginas são bem chatinhas. Lesley passa muito tempo descrevendo a rotina de Belle. Apesar de ser devagar, essa é uma parte importante para entendermos o significado de cada personagem secundário para a protagonista e como seus desejos e preocupações refletem sua ingenuidade. Assim, podemos acompanhar o amadurecimento dela durante a trama, fazendo as comparações necessárias.

Depois da morte de Millie, a garota mais velha da Cassa de Annie, ainda demora um pouquinho pras coisas acontecerem e quando acontecem, o bicho pega. Belle é sequestrada pelo assassino como uma forma de silenciar a única testemunha do assassinato. Ele a leva para a França onde é vendida a um bordel e obrigada a realizar programas por altíssimas quantias de dinheiro, sem receber nenhum tostão, é claro. Como vocês podem perceber, após a saída de Belle da casa da mãe, ela passa por muitas experiências traumáticas como o primeiro programa (forçado). Se já é ruim pra qualquer um, imagina pra alguém que descobriu apenas há poucos dias o significado de ser uma prostituta. Sim, pois é só quando vê o assassinato de Millie, escondida embaixo da cama da garota, que Belle descobre os segredos da Casa.

Todo o livro é recheado de experiências pesadas como essa. Estupros, humilhações, sequestros... Esse tipo de coisa acaba com uma pessoa. Por isso achei estranho a rápida recuperação emocional de Belle quando ela chega a New Orleans. Relevemos novamente. Porém, subestimamos a personagem por conta de sua inocência e ingenuidade, de forma que nos surpreendemos com sua força e coragem frente a esses traumas.

Apesar de toda essa merdalhada acontecendo na vida da menina, a leitura não é muito chocante porque a escrita de Lesley é leve. Ela tem um jeito de dizer as coisas que não te deixam muito OH MY FUCKING GOD, como se fizesse uso de eufemismos muito sutis. Mas não é assim. Suas frases são diretas, sem rodeios, é só o estilo dela amenizando a leitura, sem pesar no coração, sabe?

O mais legal desse livro foi acompanhar o crescimento de Belle. A prostituição abre outras portas pra ela e sua inocência, parte marcante de sua personalidade no começo do livro, vai sumindo aos poucos. E mesmo depois de todas as coisas que ela sofreu, continua sendo a mesma menina inglesa ingênua, fazendo-a confiar nas pessoas erradas. Às vezes ficava com muita raiva por Belle não perceber as verdadeiras intenções de quem acabava por cruzar seu caminho. Mesmo algumas partes sendo contadas pelo ponto de vista dela, dá pra perceber quem é canalha e quem não é.

Além de tudo isso, nota-se que Lesley fez uma pesquisa bem caprichada sobre os costumes de cada lugar (pois Belle passar por vários diferentes) e sobre acontecimentos históricos também. Vemos várias referências a moda americana ou francesa, como o peplum (apesar de eu só ver esses blogs falando desse peplum lá pela década de 40 e o livro se passa no começo dos anos 10) e fatos importantes como a coroação e morte de reis e o movimento sufragista feminino.

Belle não é o tipo de heroína cheia de força física e inteligência, como a Katniss, que eu adoro. Seu contexto histórico não permitia isso. Ela tem uma coisa chamada força de espírito, força de vontade, que anda muito em falta hoje em dia. Me impressiona como depois de tudo o que ela passou, ainda se esforçou para ser boa no que faz, até porque não lhe restava opção. Era o único jeito de voltar para sua amada Inglaterra e abrir a tão sonhada lojinha de chapéus.

Mas o livro Belle não seria nada sem os personagens secundários fantásticos, tanto os fixos da Inglaterra quanto os passageiros da França e Estados Unidos. Prestem atenção no Etienne <3.

Só a Novo Conceito que podia ter feito uma revisão melhor e aumentar a letra porque está terrivelmente pequena osmíopepira.

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