Menina Morta-Viva, Elizabeth Scott

Durante um passeio da escola num parque aquático, uma das alunas, uma garotinha de quase dez anos, se afasta do grupo. Ela tinha brigado com as amigas e estava vendo os pinguins sozinha. Quando a avisam que seu grupo escolar estava vendo um filme, ela pede ajuda a um rapaz, provavelmente funcionário do parque, para ajudá-la a voltar. A partir desse momento, essa garotinha não existe mais. Agora, ela se chama Alice.

O rapaz, o Ray, agora é dono dela e quer "cuidar" da então Alice. Assim, leva a menina para seu apartamento em outra cidade e faz dela a "sua garotinha". Alice passa cinco anos vivendo à mercê do psicopata, sendo obrigada a lavar, servir comida, enfim... Fazer tudo o que Ray deseja. No começo ela chorava, gritava, pedia pra voltar pra casa. Agora já se acostumou. Nada faz mais diferença, porque ela é uma menina morta-viva.

É o terceiro livro sobre sequestro que leio, o segundo de ficção. Sabe quando você começa a ler e não consegue mais largar, quando nem o sono é obstáculo pra leitura continuar porque você simplesmente precisa saber o final? Então. Me surpreendi bastante com essa história, não esperava quase nada dela. Puro preconceito. Provavelmente por causa do tamanho, são só 169 páginas, então dá pra ler rapidinho. Além disso, já tinha dado uma folheada no livro quando ele chegou (comprado pelo Bolsa Blogueiro da Underworld) e achei estranho, pois havia muitos capítulos e alguns com apenas um parágrafo ou até uma linha! Tipo, oi?

Mas enfim... Depois de começar a ler, os recursos da Elizabeth fizeram sentido. Pra mim, ela usou essa formatação diferente para caracterizar o estado de espírito de Alice. Assim como também fez uso de períodos confusos, quase sem vírgulas, para indicar exatamente toda a embaralhação pela qual a garota estava passando há cinco anos. Imagine só... Ela parou de estudar e o cara era simplesmente obcecado pelo peso dela. Porque ele era pedófilo e queria que Alice mantivesse o corpo de menininha. Além de ter sua comida toda controlada, ela sofria muitos abusos físicos porque Ray era de lua. Quando ela pensava "ok, farei dessa maneira, assim não vou apanhar", ele simplesmente decidia que não estava bom e batia nela do mesmo jeito. Ou seja... Apesar da rotina, de ter horários e obrigações a cumprir, Alice nunca sabia quando ia apanhar ou ser obrigada a fazer um "agrado" ao seu cárcere.

Além desses recursos, Elizabeth também nos omitiu o nome da personagem. Aliás, esse foi o objetivo do livro: mostrar como pequenos detalhes definem quem nós somos. Quando alguns pequenos hábitos são tirados de você, sua personalidade fica conturbada e isso deixa qualquer um maluco. Todos os três livros sobre sequestro que li, tanto a da Natascha quanto os de ficção falam sobre isso, sobre quem nós somos, identidade.

Todas essas caraterísticas juntas (os parágrafos, a falta de pontuação) dão um quê a mais, pois já perceberam como mesmo em situações de extremo estresse os personagens fazem seus relatos de forma concisa e controlada? Com a narração de Elizabeth, podemos sentir o desespero da protagonista, como se ela estivesse na nossa frente, ofegante, sem se controlar, tentando organizar os pensamentos. Achei isso incrível!

Pra quem gosta do gênero (essa coisa de psicologia e tal), com certeza é um must have, read e love. Todos os aspectos do livro são bem pensados. Cada vírgula, ponto, adjetivo e mudança de capítulo foi escolhida com todo o cuidado. Até queria que fosse mais longo, que contasse cada diazinho da vida de Alice durante o sequestro, mas se tivesse um número maior de páginas, com certeza não seria a mesma coisa.

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