Jogos Vorazes, Suzanne Collins

Onde antes se localizava a América do Norte, agora rege o temido governo de Panem. O país é divido em 12 Distritos (o décimo terceiro foi dizimado), cada um responsável por uma atividade comercial e controlados pela Capital, a cidade principal. Lá, os habitantes parecem alheios aos problemas de fome e opressão que o resto do povo encara todos os dias, pois não há falta de luz nem de comida, as pessoas se vestem de formas extravagantes e também falam de um jeito esquisito. O retrato mentiroso de um lugar onde os velhos morrem de fome, as crianças são obrigadas a trabalhar em alguns Distritos e os cidadãos recebem punições severas caso desrespeitem a lei (como ser chicoteado em praça pública).

Mas Katniss Everdeen, uma moradora de 16 anos do Distrito 12, um dos mais pobres, não vê outra saída a não ser se esquivar da lei. Ela foi obrigada a fazer isso depois da morte de seu pai e a letargia de sua mãe frente à responsabilidade de cuidar das filhas. Para alimentar a família, ela caça na companhia do amigo Gale numa área que circunda o Distrito. Uma área proibida.

Kat é obrigada a deixar o lar e Gale para trás quando se sacrifica pela irmã Primrose. A garotinha de 12 anos foi sorteada para os sangrentos Jogos Vorazes, um evento anual organizado pela Capital, feito para lembrar aos moradores de Panem quem manda no pedaço. Assim, Katniss parte para a quase morte certa, com o garoto sorteado: Peeta Mellark, cuja ousadia salvou sua vida há alguns anos atrás.

Sei como é perigoso criar expectativas em relação a um livro e como isso pode afetar nosso julgamento. Tipo "nossa, esperava tanto uma coisa boa!" e acaba dando avaliação negativa para um história interessante quando, na verdade, ela apenas não correspondeu às nossas esperanças. Portanto, não há sensação igual a quando a gente vê nossos sonhos realizados e com uma dose extra de satisfação.

Personagens femininas e fortes me fascinam. Estou cansada de ver heróis tomando conta das nossas sagas quando temos oportunidade de criar mulheres extraordinárias também. E então sou apresentada a Katniss Everdeen, uma garota obrigada a deixar a infância, pois precisou assumir a liderança da família e alimentar três bocas famintas (cinco, se contarmos com a cabra e o gato). Ela é uma moça de temperamento duvidoso, fica carrancuda com facilidade e é um pouco orgulhosa. Katniss foi obrigada a ser desse jeito. Não há muitos motivos para rir em Panem.

Apesar de ser a principal provedora da casa e habilidosa na arte da caça, Katniss não é uma garota durona. Não é grande nem bota medo nas pessoas. Os outros tributos dos jogos até sentem indiferença em relação a ela no começo. É uma personagem de personalidade complexa (por ser corajosa e um pouco debochada quando possui uma pequena vantagem, enquanto é vulnerável ao mesmo tempo, por possuir muitos pontos fracos, como o baixo peso), mas para compensar isso, Suzanne nos deixar a par de todos os seus pensamentos. Durante a narrativa, temos conhecimentos das ponderações de Katniss e assim conseguimos distinguir os motivos de suas decisões. Se foi puro instinto, uma ação pensada e friamente calculada, algo que lhe causou frustração... Temos grandes pedaços de discussões interiores (de Katniss para Katniss) e isso pode ser um pouco entediante para alguns (para mim não. Aliás, foi essencial para o entendimento da trama). O começo também é assim, devagar, quando ela conta como é sua vida no Distrito e descreve sua relação com a mãe, a irmã, Gale e o pai falecido.

Já Peeta é um pouco mais fácil de entender. Katniss reclama uma vez de sua imprevisibilidade, mas pra mim ela só estava imaginando coisas demais. Durante um momento, ele parece estar do lado dela e no seguinte contra ela, pois formou aliança com outros tributos. Mas está claro nas ações dele suas verdadeiras intenções. O problema é que Katniss é desconfiada demais e isso só a torna mais interessante porque né, são os Jogos Vorazes! Nem Peeta, a quem ela "conhece" (porque eles nunca chegaram a ter uma conversa de fato) desde criança pode ser confiável. Afinal, apenas um dos 24 tributos sai vivo.

Achei o livro simplesmente emocionante. Pode ter parecido monótono pelo minha descrição, mas as dificuldades encontradas por Katniss durante o caminho (a busca por água, por comida, por abrigo, por formas de ataque) te deixa agoniado e sentindo sua sede, sua fome, sua frustração. Acho que tem algo a ver com os verbos flexionados no presente. Achei, sobretudo, a criação dos personagens fantásticas, pois todos possuem características peculiares que refletem o Distrito de onde vêm. Além disso tudo, Suzanne, na maioria das vezes, encerra os capítulos em momentos de alta tensão, te obrigando a seguir em frente. É uma leitura fácil, de vocabulário e linguagem simples (precisei consulta o dicionário algumas vezes, mas não é nada muito sério), com uma história nunca vista antes* e protagonizada por uma garota quente. Precisa de mais?




*Vi um comentário no youtube que dizia "cópia de Battle Royale". Trata-se de uma mangá ou HQ e a sinopse é de fato parecida. Alguém já ouviu falar?

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